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Notícias


23.03.2005 - Caetité (BA)
Caetité recebe com festa a expedição Brasil Não É Nuclear e critica o descaso com a extração de urânio
Cidadãos reclamam da negligência da empresa INB, responsável pela extração do minério, e da falta de informações sobre os riscos
Os 45 mil habitantes da pacata Caetité, no interior baiano, vivem em estado de alerta: a cidade é próxima a uma mina com mais de 100 mil toneladas de urânio, material altamente radioativo utilizado para a geração de energia nuclear. Os moradores temem um acidente, o que seria terrível para a população local e para o meio ambiente. A cerca de 40 quilômetros do Centro, a empresa Indústrias Nucleares do Brasil (INB), é a responsável pela extração. Entretanto, de 2001 para cá, houve três vazamentos de material radioativo no complexo industrial e a população não foi avisada nem treinada para uma situação de emergência. Os moradores vivem tensos com o perigo e deixaram isso claro nesta quarta-feira, quando receberam entusiasmados a expedição ‘Brasil Não É Nuclear’, do Greenpeace, que está percorrendo o país para combater a retomada do programa nuclear brasileiro e a construção da usina Angra 3.

“Que bom que vocês vieram até aqui para conversar com a gente e explicar um monte de coisa que eles, da INB, não falam”, comemora Luiza Freire, professora da rede municipal de ensino de Caetité. “Nossa relação com eles nunca foi boa, é baseada em mentiras. Eles menosprezam a inteligência da população”. Luiza elogiou muito a iniciativa do Greenpeace e pediu para que ela fosse repetida. “Não abandonem a gente não, por favor. Precisamos de vocês para explicar à população que o Brasil corre perigo e que, se todos colaborarem, podemos impedir isso”.

O balão simbolizando o planeta Terra foi inflado durante a manhã no Campo do Gambá, de onde se vê boa parte da cidade. Centenas de estudantes de várias escolas da cidade foram atraídos pela novidade e aproveitaram para deixar inúmeras mensagens no banner que será entregue ao presidente Lula no final da expedição, em maio. Júlia Cristina, de 10 anos, pediu paz e cuidado com o meio ambiente. “O Lula tem que tomar cuidado com essas coisas perigosas”, disse ela. Já Selene Janaína, de 18 anos, quer que o governo invista em energias limpas, como do sol e dos ventos. “Tenho vários amigos que trabalham na mina e a maioria não gosta muito. Eles dizem que aquilo parece uma bomba-relógio, que dá medo”, afirmou a estudante da oitava série.

Para Cláudia da Silva Martins, diretora do Colégio Estadual Professora Ielita Neves Cotrim Silva, a presença do Greenpeace na cidade vai ajudar a despertar nas crianças e adolescentes a curiosidade crítica. “Aqui tudo é muito fechado, muitos se iludem com o que o pessoal da INB fala, mas sabemos que eles não dizem tudo que sabem ou fazem.”

Segundo Cláudia, várias escolas são convidadas a visitar o prédio da INB perto da mina, mas as explicações dadas são superficiais. “Eles até falam dos problemas que podem ocorrer, mas não muito. Às vezes se recusam a responder algumas perguntas”, diz. Durante o período em que a expedição ‘Brasil Não É Nuclear’ ficou em Caetité, várias dúvidas foram esclarecidas. Os estudantes, entre 10 e 20 anos, mostraram-se interessados no assunto e fizeram fila para fazer perguntas e ouvir as explicações dos integrantes do Greenpeace.

“Se a mina é tão perigosa, porque eles (da INB) não falam isso para gente e não fecham tudo lá?” perguntou Jeferson André de Lima, 16 anos, que gostaria de ver Caetité sem nenhum tipo de risco radioativo. “Eles parecem que não se importam com a gente.

Será que estão esperando acontecer um acidente grave que mate um monte de gente para só então fazer alguma coisa?”
A expedição agora segue para Salvador, a quinta cidade de um roteiro de 22. No total, serão percorridos 11.500 quilômetros de Norte a Sul do Brasil.






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